A criança que chora porque não tem que comer. Qual é que é o problema? A mãe que chora porque não tem com que a alimentar. Qual é que é o problema? O homem que chora porque não tem como a cobrir. Qual é que é o problema? A rapariga que chora porque o rapaz nunca chegou a vir. Qual é que é o problema? O rapaz que chora porque não encontrou o caminho para lá chegar. Qual é que é o problema? O sorriso que chora por se ter fechado. Qual é que é o problema? O doente que chora porque não achou a cura. Qual é que é o problema? A cura que chora porque não a quiseram usar. Qual é que é o problema? As pessoas que choram porque já não sabem sentir. Qual é que é o problema? O problema é o mundo. E esse já não chora.
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terça-feira, 8 de junho de 2010
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Moda: um prazer ou uma obrigação?
Será assim tão necessário ter aqueles sapatos Chanel ou aquela camisola Ralph Lauren? Vivemos numa sociedade de necessidades extremas, ou deverei dizer extremamente desnecessárias? Somos considerados, julgados, por aquilo que usamos ou vestimos em determinada situação. Se as calças não combinam com a camisola somos distraídos e não temos o mínimo sentido estético; se a cor é muito berrante somos excêntricos e extravagantes; e se a marca não for suficientemente conhecida - Deus nos livre! -, é como se não existíssemos socialmente. É imposível fazermos algo sem que esteja toda a gente a comentar, a apontar o dedo, ou, por assim dizer, a criticar. Não podemos ser nós mesmos. E a culpa é da publicidade, dos desfiles, de toda a propaganda desnecessária, por vezes camuflada de caridade. Vivemos numa sociedade onde as necessidades terciárias são quase primárias, e onde o manequim (que somos nós) demonstra não só o nosso gosto, mas o nosso modo de ser e também a nossa vida, com base no tecido que o reveste. Não me interpretem mal, eu também me deixei corromper. Mas só um bocadinho.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Carta para quem já não sei
Querido amigo,
Grande foi a surpresa ao ver que me procuraste mesmo sem saberes quem eu sou ou sequer se existo.
Não sei quem tu és ou quem tu foste, onde vives ou viveste, e como tal sigo-te as pisadas não pondo dados meus nesta carta, pois não precisas de saber quem eu sou para me escreveres de volta.
Tal como tu, sou uma pessoa apaixonada pela epistolografia, sinto a necessidade de escrever para todos e para ninguém, sofro daquela vontade sufocante de me expressar por escrito. Uma conversa esquece-se mas uma carta pode ser relida inúmeras vezes, guardada ao longo dos tempos, sobreviver à própria morte passando para as mãos de outrem.
Sinto que o mundo está estragado. A tecnologia afastou as pessoas e não sinto gosto por nada em particular, e tenho de escrever porque niguém fala com ninguém.
Leio cartas de há quatro séculos que foram mantidas na minha família (estarás tu a ler isto daqui a quatro séculos também?), e não as compreendo... Falam de crises emocionais, de romances adolescentes, de amores para toda a vida, e até de cartas a um senhor chamado Pai Natal. Pergunto-me de quem ele terá sido pai pois muita gente falava dele.
E o que é tudo isto afinal? Será que já vivo numa época onde os sentimentos, ou lá como lhes chamam, não chegaram? Será que se perderam com o passar das décadas? Diz-me que há esperança. Por favor, diz-me que há esperança! Pois, caso contrário, sinto que o mundo já morreu... E com ele, eu também.
domingo, 24 de janeiro de 2010
Queria mudar o mundo, mas mudei
Se perguntarmos a uma criança o que ela quer ser no futuro, de certeza que ela nos vai responder algo como médico, bombeiro, astronauta ou músico. Isto porque desde cedo todos temos ambição, todos queremos ser conhecidos e reconhecidos pela ideia de termos feito a diferença, quer no campo da metafísica, medicina ou simplesmente da música que passa nos bares e discotecas. Aquilo em que ninguém pensa é no que temos de passar até chegar lá, e este é o mal da sociedade. As pessoas limitam-se a acordar de manhã, e a achar que salvaram o mundo à tarde, a tempo de estarem em casa para jantar com a família. Mas o que é facto é que elas nem se salvam a si mesmas. A maior parte de nós limita-se a viver na ilusão do que queremos ser e não do que somos realmente; do que queremos para nós e não das consequências que isso traz. Gostava que as pessoas ganhassem consciência do que se passa nas suas vidas, na relação com os outros; que não se limitassem apenas a ver aquilo para que querem olhar, até porque às vezes nem isso conseguem ver. É mais fácil alimentar a ideia de que somos o que não somos, do que aceitar que não o somos realmente, pois isso seria admitir que perdemos. A verdade é que há muita gente que faz a diferença, muita gente que importa, mas que importa porque se importa, e essa gente, sim, merece respeito. Quanto a todos os outros, devemos tentar estabelecer metas, definir objectivos, e não nos limitarmos a andar por aqui, porque quando dermos por nós já nem energia temos para andar, e aí limitamo-nos a ficar à mercê de alguém, que, tal como nós, também vai achar que merece mais do que aquilo. Vamos tentar prestar atenção ao que se passa em redor, e fazer alguma coisa quanto a isso. Mas acima de tudo temos que lembrar-nos que o redor começa em nossa casa, naquilo que não queremos ver. Eu queria mudar o mundo, mas mudei. E mudei quando percebi que aquilo que posso fazer está demasiado perto para que sejam os outros a reparar. Eu queria mudar o mundo, mas mudei.
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